quinta-feira, 4 de agosto de 2011

300 famílias são despejadas em Itabira (MG)

Como prediziam textos publicados em diversos sítios da internet, no dia primeiro de Agosto de 2011 concretizou-se o despejo de 296 famílias de uma comunidade na cidade de Itabira, Minas Gerais. Um ofício enviado pelo Ministério Público Federal ao Governo do estado exemplifica a irregularidade da ação: um processo de despejo não pode resultar em pessoas e famílias desabrigadas.



Despejo da comunidade Carlos Drummond em Itabira

Há 72 dias manifestantes estão acampados em frente à prefeitura de Itabira, Minas Gerais, reivindicam maior atenção à comunidade de Carlos Drummond. O bairro passa por um processo de despejo anunciado oficialmente no dia 24 de Maio e que tinha como prazo máximo o primeiro dia de Agosto. O acampamento em frente ao prédio público intencionava pressionar o governo municipal por uma renegociação em que fosse garantido o direito à moradia para a população de Drummond. Propostas iniciais rejeitadas, restou a preocupação com a situação do pós-despejo, que começa com sérios problemas.
Desde o ano 2000 o bairro Carlos Drummond foi sendo ocupado por famílias que, de acordo com cadastro da Assistência Social, em 15 de Julho de 2011 totalizavam 296 com renda de zero a três salários mínimos. O terreno, que há quatro décadas se encontrava em desuso, é de propriedade da família Rosa e sua reintegração foi requisitada pela primeira vez no mesmo ano do início da ocupação. Porém, através de um requerimento o advogado dos proprietários apresentou desistência de continuidade do processo. Novamente aberto em 2007, tramitou até Março deste ano, quando foram extintas todas as formas possíveis de protelação e a ordem de despejo foi dada.
Diversos movimentos sociais, líderes religiosos e associações profissionais ofereceram ajuda aos moradores de Drummond, tanto em textos de apoio, como por meio de ações. Destaca-se a atitude de Padre José Geraldo que manteve um jejum de 13 dias pedindo maior atenção do poder público. “Iniciei o jejum para sensibilizar as autoridades locais a fim de que façam alguma coisa no sentido de dar segurança a essas famílias, garantindo, ao menos, uma área em que elas possam reconstruir suas casas.” [1]
O Brigadas Populares e Dandara (ocupação urbana de Belo Horizonte), também se disponibilizaram, tanto para uma possível organização de resistência quanto para garantir que a desocupação fosse realizada de forma pacífica e justa. A população, recebendo dos meios de comunicação da cidade instruções de deixarem suas casas antes que a polícia colocasse em prática o despejo compulsório [2], que poderia e provavelmente culminaria em violência, não optou pela resistência coletiva. A ação de despejo estava marcada para o dia 1º de Agosto. No entanto, no dia 28 de Julho, quinta-feira, as famílias começaram a deixar suas casas voluntariamente.
Ainda assim a presença da polícia foi massiva no dia 2 de Agosto, terça-feira, data máxima para os moradores se retirarem do local. Foi planejada a utilização de 400 homens para a ação. Estavam presentes a Polícia Militar com batalhões especializados de Ipatinga e Belo Horizonte, o Choque da Polícia Militar, o Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE) e um helicóptero para reforço aéreo. À essa altura apenas cinco famílias permaneciam em suas casas à espera da liberação do caminhão para a mudança. Nenhuma delas ofereceu resistência.
De acordo com ofício enviado pelo Ministério Público Federal à Prefeitura de Itabira e ao Governo do Estado [3], o despejo infringia vários acordos internacionais que priorizam o cumprimento de direitos humanos universais. Na ação policial, foram também desrespeitados tratados como o bloqueio de alguns observadores que pretendiam garantir a não utilização de violência contra os moradores, assim como auxiliar no carregamento dos caminhões.
Depois do despejo, os problemas caem onde era planejado
O bairro se transformou em uma cena literalmente arruinada, com as construções já sem telhas, janelas e mobília. A única movimentação restante era dos grupos policiais que passarão a fazer a segurança do terreno, para que não possa ser alvo de uma nova ocupação. Assim como permaneciam policiais também na avenida Mauro Ribeiro, na porta de um prédio recém construído, de propriedade do atual prefeito João Izael.
Alguns moradores foram para casas de parentes, outros para a rua e parte deles seguiram para abrigos organizados pela prefeitura. A seleção de quais famílias seriam alojadas foi feita através do cadastro no programa Minha Casa Minha Vida. A estas, que precisaram comprovar uma renda mínima, foi garantido o abrigo. As demais não foram enquadradas como responsabilidade do governo municipal. Houve também a tentativa de distribuição de “bolsa-aluguel”, que se mostrou ineficiente pela falta de disponibilização repentina de tamanha quantidade de imóveis para locação.
No primeiro dos abrigos, o galpão Fio de Ouro, foi construído uma espécie de labirinto de madeirite, onde cada cubículo corresponde a um ‘apartamento’ de cozinha e dois ou três quartos. O galpão tem 10 banheiros, 40 famílias e um sistema de vigilância fabril, onde o coordenador tem ampla visão superior de todos os ‘boxes’ e pessoas.
O mesmo não acontece no ginásio do Gabiroba. Lá, as famílias foram alojadas em uma quadra sem nenhum tipo de divisão e possuem dois banheiros para 50 famílias. Pretende ser uma situação de uma semana até que no Ginásio Brazuca seja instalado a mesma estrutura do Fio de Ouro e o abrigo se transfira.
O intuito é de que essa situação permaneça por aproximadamente um ano, até que o Governo Federal tenha condição de englobar no programa Minha Casa Minha Vida as 90 famílias. O acampamento em frente à prefeitura segue firme, embora possa ser também “despejado” a qualquer momento. A administração municipal já havia requisitado a retirada dos manifestantes, mas perdeu na justiça e foi permitida a ocupação da praça enquanto o despejo da comunidade não acontecia.

À firmeza dos militantes que lutam agora por alojamentos dignos e pela obrigatoriedade do poder público conceder, como prometido, terreno e material para a construção de moradias para os que acaba de desabrigar.
Rafaella Dotta
Estudante de Jornalismo da Universidade Federal de São João Del Rei

[1] Parte de entrevista do Padre José Geraldo de Melo, vigário episcopal da Região Pastoral I da Diocese de Cel. Fabriciano e Itabira-MG, concedida a IHU On-Line (Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS), publicada no dia 21/06/2011.

[2] Como prova uma declaração dada à imprensa pelo comandante do 26º Batalhão de Polícia Militar, tenente-coronel Edvânio Rosa Carneiro, que comanda a região de Itabira: “Estamos com todo o planejamento pronto”. E ainda, "espera que os moradores saiam por livre e espontânea vontade. Se as famílias não saírem, a PM vai agir imediatamente após o fim do prazo", publicado em 01/06/2011.

[3] As remoções e os despejos forçados são considerados ilegais quando realizados com o uso de força física ou violência (…) Nenhuma remoção deve ser realizada sem o acompanhamento de funcionários públicos devidamente identificados, que devem efetivamente zelar pela segurança da população que está sendo removida; Observadores independentes devidamente identificados devem estar presentes para garantir que não sejam utilizadas força, violência ou intimidação; (...) A remoção não pode: fazer uso da violência e da intimidação, em nenhuma circunstância; Ser realizada de forma discriminatória ou replicar padrões discriminatórios; Resultar em pessoas e famílias desabrigadas; Destruir os bens das famílias afetadas; Ignorar a situação específica de mulheres e grupos em condição de vulnerabilidade (idosos e crianças, assim como outros). (grifo nosso)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Inflexões teóricas na Comunicação Organizacional

Os profissionais de comunicação enfrentam dificuldades para chegar aos postos mais elevados da hierarquia empresarial, concentrar poder, participar da criação e execução de estratégias e assumir posição central, mediando os processos internos e a relação com o público externo. Essa situação ocorre tanto por resistência estrutural em admitir e acompanhar em profundidade as transformações sociais do campo, certo temor em perder legitimidade frente às novas metodologias e, também, por uma análise acadêmica conjuntural um tanto imprecisa e unidisciplinar.
O avanço que as teorias do campo da filosofia, sociologia e comunicação, aliado às novas tecnologias e às transformações velozes pelas quais as sociedades vêm passando engendram um cenário de profunda incerteza. Podemos buscar em Bauman um cenário pós-moderno [apesar de todas as incongruências do conceito] em que as pessoas se tornam cada vez mais individualistas, preocupadas em aproveitar o tempo efêmero de vida e a eliminação de barreiras espaço-temporais fortalece o capital globalizado e padrões de consumo/entretenimento/comportamento quase que universais.
São muitos os teóricos que se esforçam em avaliar a pós-modernidade, cabe citar, ainda Harvey, que atenta para a deslocalização do trabalho e a incorporação de ideias às empresas e seus produtos, que se tornam mais uma maneira de estar em sociedade, pertencer a grupos, valorizar rituais e, como Canclini ressalta, exercer a cidadania. Nesse contexto, o solo teórico se encontra cada vez mais perigoso, movediço, muitas vezes, indo do pessimismo extremo ao otimismo utópico.
Creio que, pelo menos as poucas leituras que tive até agora, parte da literatura da comunicação empresarial se perde em tipos ideais de ações, metodologias, procedimentos e estratégias. Canclini afirma que a modernização aconteceu, e ainda acontece, de forma particular em cada realidade social, se imbricando com as características histórico-sociais do lugar, em um processo criativo que não elimina as estruturas tradicionais: entra em confluência com as condições do meio, criando interações específicas.
Acho que isso atinge um pouco o campo da comunicação, a literatura prega a interação entre administração/marketing/comunicação. As transformações sociais também incentivam o processo. No entanto, as estruturas hierarquias e tradicionais impõem resistências às novidades, frequentemente encontrando meios de seguir as inovações de forma incompleta, garantindo sua posição social historicamente construída.
De acordo com Bourdieu (1989), o mundo é representado em várias dimensões de espaço social. Esse espaço pode ser descrito como um campo de forças: “um conjunto de relações de força objetivas impostas a todos os que entrem nesse campo e irredutíveis às intenções dos agentes individuais ou mesmo às interações diretas entre os agentes” (BOURDIEU, 1989, p.133) Grifo do autor.
Os agentes que se encontram no campo são regidos por um conjunto de regras e convenções socialmente estabelecidas. A posição dos indivíduos é determinada pelo espaço e poder obtidos, o que os submete a tensões internas em busca de prestígio e reconhecimento. Os agentes buscam acumular os poderes que cada campo lhes propicia, “seja, sobretudo, o capital econômico – nas suas diferentes espécies -, o capital cultural e o capital social e também o capital simbólico, geralmente chamado de prestigio, reputação, fama” (BOURDIEU, 1989, p.135).
Esses agentes sociais entram em conflito dentro de cada campo em busca de reconhecimento, capital social, legitimação, posição considerada invejável, etc. O que acontece, penso eu, é um choque entre os administradores tradicionais e clássicos, que resistem em seguir as novas tendências temendo perder lugar na hierarquia para os novos comunicadores, mais antenados à rápida velocidade das mudanças.
Eles seguem uma visão parcial, na qual a mudança e a modernização destroem todo o funcionamento social historicamente constituído e tentam preservar sua posição renegando em parte as tendências. Contudo, como a sociedade também foi atingida pelas mudanças, as pessoas cobram das empresas uma consciência cidadã, em que a instituição faz parte do conjunto social e deve cooperar para o progresso coletivo.
Nesse sentido, os chefes se sentem encurralados, precisam dar uma resposta à sociedade e à imprensa, sofrendo o risco de perder faturamento e mercado. Penso que a alternativa adotada seja uma fuga parcial. Para isso, é importante abordar os conceitos de espetáculo e simulacro, de Debord e Baudrillard. Para eles, as mudanças sociais trazem uma interação baseada em imagens, simulacros que pouco têm a ver com a realidade e não representam as contradições e profundidade dos fatos.
Bom, tenho uma série de críticas a esses conceitos, são aplicáveis, mas generalistas. Mesmo assim, acho que acontece algo parecido com isso, as alternativas geradas pelos chefes atuam como simulacros, em função de ludibriar e opinião pública e retomar o controle do campo, sem realizar mudanças profundas que poderiam alterar toda uma constituição social já estabelecida. Claro que essas estratégias não são totalmente eficazes. Levando em conta o caso da Monsanto, um pesquisador com um mínimo de curiosidade e senso crítico não demora a achar diversos sites mundiais contestando os posicionamentos da empresa. Mas, considerando a representatividade econômica da entidade, concluímos que as estratégias mais espetaculares que concretas de sustentabilidade divulgadas no site funcionam; seja porque muita gente não liga para danos à natureza e à sociedade e quer lucrar a qualquer custo ou ainda não tem consciência da pluralidade de opiniões existente na sociedade e, sobretudo, do que a teoria da complexidade prega: as relações sociais são perpassadas por diversas causas que se interrelacionam em nós, nunca de forma monocausal.
Acho que a mudança disso parte de uma integração de ações. A construção da realidade é social e deve existir na atuação de diversas frentes. Assim: educação da população para a constituição de uma opinião pública crítica e plural, fortalecimento da relação universidade/mercado/comunidade; pressão de grupos, boicote coletivo a empresas negativas, etc.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Quebrando paradigmas: uma visão educativa sobre videogames


Marcelo Alves

A cultura popular está fazendo a audiência mais inteligente. Os videogames promovem desenvolvimento mental muito além do que é ensinado nas escolas e nos livros. As frases são duas das conclusões a que Steven Johnson chega em seu livro, Everything bad is good for you: how popular culture is making us smarter. Muito mais do que pura retórica ou jogos de palavras, o autor desenvolve um estudo sério e multidisciplinar, abordando neurociência, tecnologia, narrativa literária e crítica da cultura, para embasar seus escritos.

Vou me concentrar, nesse texto, em explicar os benefícios de videogames, seguindo o primeiro capítulo do livro. Johnson acredita que as novas tecnologias estão modificando a constituição mental das crianças contemporâneas de uma forma positiva. A mídia estimula uma forma de exercício mental, não presente nos modos tradicionais de ensino.

Para não receber pedradas, destaco, desde já, que esse desenvolvimento de que o autor fala é diferente do aprendizado escolar tradicional. Segundo ele, o problema é que a cultura elitista dominante na sociedade privilegia apenas os conhecimentos letrados, em exclusão às possibilidades audiovisuais populares, consideradas como não produtivas, retrógradas, superficiais e de menor valor. “A cultura popular têm se tornado muito complexa nas últimas décadas, exercitando nossas mentes e poderosas e novas formas”.

Jogos
Os livros e as tecnologias escritas não são desacreditadas. Johnson afirma que os leitores apuram as capacidades de atenção, memória, imaginação, entendimento e relação entre conteúdos. Contudo, a cultura popular não literária se foca em habilidades diferentes e não menos importantes. A mídia e muitos escritores ainda tratam o assunto de forma superficial. No máximo se arriscam a dizer que os jogos melhoram a precisão manual, treinam os olhos a coordenação motora.

A questão tem muito mais aspectos que isso. Os videogames nos fazem aprender sem nos darmos conta. Entendemos em pouco tempo de relações sociais, princípios de economia, matemática, física e outros assuntos. Às vezes com mais eficiência que em uma sala de aula.

Recompensa
De início, ele fala algo que é senso comum para muitos gamers: não se joga buscando diversão. Na maior parte de um jogo, nosso personagem está preso, não sabemos o que fazer, treinamos horas e horas para subir de nível e ganhar novas habilidades. Adiciono, aqui, que obviamente há plataformas destinadas basicamente à diversão, quase sem necessitar de engajamento intelectual algum.

Então o que buscam os players? O autor cita pesquisas recentes em neurociência que demonstram como games conseguem estimular o sistema de dopamina do cérebro, estimulando o sistema de recompensas. Nos jogos, diferentemente da vida cotidiana, a recompensa está certamente presente, batalhamos muito, mas sabemos que nosso caráter, carro, jogador, ficará melhor. “No mundo dos jogos, a recompensa está em qualquer lugar”.

Habilidades
Jogos eletrônicos são permanentes tarefas de paciência e ansiedade. O que os jogadores almejam é o próximo desafio, a nova fase, as dificuldades que estão por vir. “Eles não procuram conselhos morais, lições de vida ou personagens ricos psicologicamente”. Em seu desenvolvimento, o jogo ensina mais sobre como pesar a consequência das escolhas que a família e o sistema educacional.

É essencial aprender a analisar situações, estipular resultados a longo-prazo e testar hipóteses para tomar o caminho adequado, que nos trará mais benefícios no futuro. Isso fica claro na formação de uma equipe em simuladores de RPG e de futebol, automobilismo, entre outros.

Outra característica importante é que o mundo virtual não é composto de regras fixas, dadas e inalteráveis. O jogador cai num mundo de múltiplas possibilidades, sabendo pouco de seu funcionamento. O desafio maior é captar a jogabilidade, aprender as regras e usá-las em proveito próprio ou do grupo.

Probing e telescoping
Steven Jonhson explica que no aprendizado dessas regras estão contidos os fundamentos básicos da ciência: sondagem, hipótese, teste e reformulação da tese. E pegamos isso, muitas das vezes, de forma semiconsciente: testando combinações de poderes, formações, peças, aplicando a ideia e mensurando os resultados. Ele nomeia essa capacidade de probing. Nessa característica, se incluem todos os aspectos do jogo que simulam o mundo real: economia da cidade, entre equipes, velocidade de carros, estabilidade, relações sociais, entre outros. Quem nunca viu isso na franquia The Sims.

Os gamers têm claros na mente os objetivos do jogo. Muito além de salvar a princesa, matar o vilão, chegar em primeiro na corrida ou ganhar o campeonato, o desenvolvimento do game possui diversos sub-objetivos com os quais devemos nos preocupar. Isso desenvolve no player a capacidade de elencar tarefas, estipular metas, organizar ações e estipular uma hierarquia. Johnson chama isso de telescoping. “Eu diria que os desafios cognitivos de videogames são muito mais úteis comparados a outros gêneros educacionais que, sem dúvida, vão o lembrar de seus anos escolares”.

MTV e Multitask
O escritor ainda aborda o efeito MTV. Esse canal instaurou a lógica dos vídeoclipes, as imagens rápidas intercaladas que passam diante dos espectadores em um fluxo rápido e contínuo. Diferentemente de pensadores tradicionais, que afirmam que a velocidade elimina a possibilidade de pensamento, isso fez com que a audiência aprendesse a estética do caos: experimenta a desordem e cria uma lógica para tudo aquilo que está sendo apresentado. “Não é tolerar ou estetizar o caos, é encontrar ordem e significado no mundo e tomar decisões que ajudam a criar essa ordem”.

Além disso, outra característica presente nos jogos e nas novas tecnologias é a capacidade de operar diversos dispositivos ao mesmo tempo e prestar atenção em várias plataformas. “Linda Stone cunhou o termo: atenção contino-parcial. Você presta atenção, mas só parcialmente.”

Fio da meada
Os videogames nos trazem experiências novas, impossíveis em plataformas tradicionais. O personagem é peça criativa e participativa do enredo, colaborando com sua própria organização de jogo, entrando em contato com outros jogadores, fazendo relações pessoais, aprendendo sistemas de troca e confiança. A complexidade desses jogos costuma ser altíssima, com emulação precisa da realidade. A bola no futebol corre mais na chuva, os jogadores se cansam, se machucam. O time precisa ser administrado, buscar financiamento, negociar patrocínios e jogadores. O carro tem que ser ajustado de acordo com as condições da pista...

Obviamente que não são todos os jogos ou todos os jogadores que apreendem essa nova realidade. Muitos não passam do “início rápido”, jogando partidas desconexas, corridas rápidas e lutas sem continuidade. Mas não podemos ignorar as possibilidades de desenvolvimento mental que esses games propiciam, se tornando cada vez mais difíceis e complexos.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

2378: a viagem no tempo invertido

Marcelo Alves

Estou lendo o interessantísimo livro de Steven Johnson, Everything Bad is Good for You. A tese do autor é de que os programas televisivos, bem como jogos e a internet não instilam idiotice e passividade na sociedade, mas fazem parte de uma nova cultura popular contemporânea que desafia intelectualmente cada vez mais os espectadores. Farei uma resenha e uma análise desse livro mais a frente, estou nas primeiras paginas, lendo com intensiva curiosidade e quebrando diversos paradigmas que tinha na cabeça sobre esses programas. Ainda não sei onde tudo isso chegará.

Destaco, aqui, apenas uma parte que muito me chama a atenção por sua pertinência e irreverência intelectual. Johnson cita Marshall McLuhan para argumentar que as novas mídias já nascem com uma análise preconceituosa e reducionista, feita por aqueles acostumados às tradicionais formas de veicular símbolos. Par ilustrar isso, o autor sugere uma crítica em uma sociedade em que livros fossem inventados após os videogames. Essa é uma tradução aproximada do texto presente no livro e que ele diz que seria comum nesse cenário hipotético:

(Original no livro em inglês)

Ler livros cronicamente desestimula os sentidos. De forma diferente à longa tradição de jogos – que engaja a criança em um vívido e tridimensional mundo cheio com imagens velozes e fundos musicais, navegado e controlado por complexos movimentos musculares – livros são, simplesmente, uma barra de linhas em seguida numa página. Apenas uma pequena porção do cérebro se implica no processamento da linguagem escrita, enquanto jogos usam todas as partes do cérebro destinadas a sentidos e a movimentação.

Livros são tragicamente isolantes. Enquanto jogos tem, por muitos anos, estimulado os jovens em complexas relações sociais com seus parceiros, criando e explorando mundo em conjunto, livros forçam as crianças a ficar quietas em um local distante, sem a interação com outras crianças. Essas ‘novas bibliotecas’ que apareceram nos anos recentes para facilitar as atividades dos leitores são assombrosas: dúzias de jovens crianças, normalmente tão vívidas e socialmente interativas, sentadas sozinhas em cubículos, lendo silenciosamente, esquecidas de seus parceiros.

Muitas crianças gostam de ler livros, claro, e, sem dúvida, alguns voos escapistas das leituras têm seus méritos. Mas, para uma considerável parcela da população, livros são discriminatórios e reducionistas. Estudos recentes mostram que 10 milhões de leitores americanos sofrem de dislexia – uma condição que nem existia até o texto impresso aparecer e estigmatizar seus leitores.

Mas, talvez, a propriedade perigosa mais importante desses livros seja o fato de que você tem de seguir um caminho narrativo linear. Você não pode controlar as narrativas de nenhuma forma – simplesmente senta e tem a história ditada. Para aqueles que cresceram em narrativas interativas, essa propriedade é impressionante. Como alguém pode embarcar em uma aventura totalmente coreografada por outra pessoa? Mas a geração de hoje embarca em tais aventuras diversas vezes por dia. Isso arrisca instilar a passividade geral em nossas crianças, fazendo-as sentir como se elas tivessem menos poder frente às circunstâncias. Ler não é uma atividade, um processo participativo: é um ato submissivo. Os leitores de livro da nova e mais jovem geração estão aprendendo a ‘seguir o roteiro’, em vez de tomarem a liderança.

(Fim da tradução)

Belo golpe na cultura letrada e intelectualóide que se arrasta pelos séculos dominando, subjugando e diminuindo o valor da cultura popular e suas características.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Profissional de psicologia pode atuar em várias áreas



João Eurico e Marcelo Alves

O curso acadêmico de Psicologia oferece ao aluno uma variada gama de áreas e perspectivas de abordagem. As diversas correntes filosóficas são muitas, as mais conhecidas são: behaviourista, cognitiva, humanista, sociocultural, fenomenológico-existencialista e psicanalista. Além disso, há a intervenção médica, por meio da psiquiatria. Esta é uma especialidade médica, na qual os pacientes são tratados com psicoterapias e medicamentos.
A atuação do psicólogo também é diversificada. Em sua formação, o estudante tem matérias de psicologia do esporte, clínica, hospitalar, social, escolar e organizacional.

Psicologia
O coordenador do curso de Psicologia da UFSJ, Wilson Camilo Chaves, explica que as possibilidades de formação têm teorias e campos de trabalho específicos. A psicologia educacional, por exemplo, lida com o ambiente escolar, relação professor/aluno e dificuldades de aprendizagem. “É um trabalho facilitador dos processos na escola”, diz Camilo Chaves.
A psicologia organizacional, por outro lado, cuida da saúde do trabalhador e amplia as relações nas empresas. Nas instituições, as funções do psicólogo abrangem mais do que as decisões sobre os cargos ou treinamentos e desenvolvimentos de pessoal.
Há atividades que são próprias especificas do psicólogo, como recursos humanos, área clinica e alguns testes. “São testes projetivos, que compõem uma avaliação vocacional, profissional. Junto com as entrevistas, o profissional aplica esses testes para uma seleção empresarial, por exemplo”, justifica o coordenador do curso.

Clínica
Para atuar na área clínica, o psicólogo complementa a sua formação com cursos (especialização, pós-graduação stricto sensu e lato sensu). O profissional utiliza a psicoterapia, um conjunto de técnicas e meios, para analisar e intervir nos problemas emocionais, comportamentais e/ou transtornos mentais dos pacientes. “Não trabalha [o psicólogo] só com o sujeito, mas também com o grupo, com a família, no atendimento aos pais, aos casais. É um trabalho de consultório. O tratamento pode ter um tempo estabelecido, com um número de sessões, tem também a psicanálise e a psicoterapia fenomenológica existencial, onde você não tem como determinar um tempo”, explica Camilo Chaves.
Na perspectiva cognitiva comportamental, a terapia é determinada de maneira racionalizada, por meio de passos e intervenções específicos. “Se um sujeito está com algum pânico ou uma fobia, o trabalho é feito com sessões visando à mudança de comportamento”, diz.
Em outros pontos de vista nem sempre é assim, não se trata o sintoma, mas o sujeito em sua singularidade, sua diferença. “Como faz a psicanálise, em que o sintoma não é para ser resolvido, mas é feito o reposicionamento do comportamento em frente ao sintoma”, elucida Camilo.
Há, ainda, a psicologia social que trabalha com comunidades, programas de saúde, tribunais de justiça, ou seja, “a psicologia social entende mais a interação do fenômeno social, numa perspectiva psicossociológica”.

Psicanálise
O psicanalista é um profissional de nível superior, muitas vezes psicólogo ou médico, que faz, posteriormente, um curso numa instituição psicanalítica e submete-se à Psicanálise. Na Psicanálise, são utilizadas as teorias da personalidade e métodos de tratamento introduzidos por Sigmund Freud. Embora, muito difundida, a Psicanálise não tem reconhecimento científico. “A psicanálise se firmou com uma abordagem sobre o sofrimento psíquico não como doença, mas elaborar a conversa, numa maneira muito singular de intervenção”, comenta o coordenador do curso de psicologia.
Do ponto de vista psicanalítico, o sujeito se estrutura a partir de uma ausência. Com a ideia do inconsciente, a partir de Freud, alarga-se a perspectiva da consciência, no sentido de que o psíquico é em si inconsciente. “Por mais que a gente faça avanços, o homem ainda não resolveu grandes problemas, os problemas ainda são os mesmos. A questão da sexualidade, da morte, são questões humanas que não tem resposta de maneira definitiva”, argumenta Camilo Chaves.

Psiquiatria
O profissional formado em medicina faz mais dois anos de residência em psiquiatria. O psiquiatra pode tratar psicopatologias por meio de terapias ou administrado fármacos. “Do ponto de vista psiquiátrico, é complicado porque o fenômeno psíquico não é da mesma natureza que o fenômeno físico, fisiológico. Às vezes, a abordagem entende que o psicofísico e o psicológico como uma interação da mesma natureza. É outra especificidade, é como se você pudesse tratar o psíquico como se tratasse o físico”, critica o psicólogo.

Escolha
O aluno do 7º período de psicologia, Rodrigo Afonso Nogueira, afirma que possui mais afinidade com a perspectiva psicanalítica por ser mais coerente. “Mas não podemos nos focar apenas em uma área, o curso é muito amplo e possibilita muitas alternativas”, diz.
Anna Castro, do 3º período, considera a psicanálise uma área “extremamente válida, mas é preciso tomar muito cuidado com as generalizações, e entender que o contexto histórico-social é determinante na aplicação do tratamento e do diagnóstico”, avalia. Ela argumenta que escolheu a Psicologia por ser “muito mais ampla, pois estuda o comportamento e o psiquismo humano através de diferentes perspectivas (como a evolucionista, a humanista, a cognitiva e a sociocultural)”, justifica Anna.

domingo, 10 de julho de 2011

Democratização do acesso: entre o lobby empresarial, a defesa do produtor e o uso social



Marcelo Alves

“Restabelecer o equilíbrio entre a remuneração dos intermediários, as condições de criatividade dos que inovam, e a ampliação do acesso planetário aos resultados – objetivo estratégico de todo o processo – é o desafio que temos de enfrentar” Ladislau Dowbor, 2009

São acalorados os debates sobre democratização do acesso, conhecimento coletivo, copyright, creatives commons, copyleft, indústrias de filmes e de músicas, bem como obras acadêmicas, patentes, informação e literatura. O professor doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, Ladislau Dowbor, é uma das mentes brasileiras mais comprometidas com a defesa da livre distribuição do conhecimento da e cultura na era cibernética.
A tese do professor segue trabalhos publicados por Lawrence Lessig, James Boyle, Joseph Stiglitz, André Gorz, Jeremy Rikin, Eric Raymond, Manuel Castells, Pierre Lévy, entre outros. O grupo de acadêmicos defende que a democratização da cultura e da educação é primordial para garantir a igualdade entre as nações, significando avanço coletivo em ciência, arte, tecnologia, economia e política.
Contudo, Dowbor ressalta que as indústrias de entretenimento (cinema, música, informação), constituem grupos de lobby para pressionar parlamentos a criar legislações que impeçam a difusão do material na internet e na sociedade, criminalizando downloads e qualquer distribuição de conteúdo que não respeite a lei de Direito Autoral. “Em vez de se adequarem às novas tecnologias, sentem-se ameaçados, e buscam travar o uso das tecnologias de acesso, acusando quem as usa de pirataria, e até de falta de ética” (p.2).
O professor faz uma análise lúcida e documentada da situação. A legislação corrente permite que uma obra caia em domínio público 70 anos depois da morte do autor. Isso garante o monopólio da exploração mercadológica e artística do conteúdo, que é vendido em lojas especializadas por uma quantia muito superior ao custo de produção e distribuição reais. Esse valor, contudo, não é revertido para o criador. Fica com os intermediários, as organizações culturais, que, na prática, apenas disponibilizam o suporte material e cuidam de toda a logística de marketing, publicidade e distribuição.
Dowbor argumenta que essa lógica nunca fez sentido e, com as mudanças sociais trazidas pela internet, se torna ainda mais anacrônica e irreal. A exploração comercial dos produtos culturais se limita a pouco tempo: a cultura se torna cada vez mais rápida e mutável, as modas vêm e vão em curto prazo de tempo. Com isso, as empresas vendem os filmes, músicas, livros, em até cinco anos, no máximo 10. Isso é fácil de ser comprovado: os best-sellers são preferidos pelas indústrias e ganham mais edições do que os clássicos, long-sellers.
Acontece que, a febre de consumo não dura muito. Quem lembra qual o livro/cd/filme estava na prateleira de mais vendidos em 2001? Quem ainda os compra? Quais ainda estão nessa prateleira em 2011? “A solução não é liquidar os direitos de propriedade intelectual, mas limitá-los a 5 anos prorrogáveis por mais 5 pelo dono dos direitos, caso ache que vale a pena” (p.3).
Isso sem considerar a inúmera quantidade de obras que não ganha nova versão e se torna raridade em sebos ou no submundo da cultura: obras em que os donos do direito de cópia já faleceram e seus herdeiros não são encontrados ou brigam pela partilha da herança; ou mesmo quando a empresa não considera viáveis os custos de uma nova edição porque não teria novo sucesso de vendas. “O uso educacional e científico sem fins lucrativos deve ser liberado. O uso pessoal e interpessoal não comercial deve ser facilitado” (p.3).
Com isso, grande parte da produção cultural fica inacessível com o passar dos anos para proteger os direitos econômicos de pequenos grupos de empresários – note-se: não dos artistas.

E o lucro?
A essa pergunta, o professor responde provocativamente: “é curioso constatar a fragilidade dos argumentos segundo os quais a livre disponibilização dos livros impede a sua venda” (p.4). Em seu texto, ele lista diversas experiências de autores que disponibilizaram suas obras livremente na internet e, hoje, são conhecidos por um público bem maior e fazem dinheiro ministrando palestras, concertos, aulas e coletando publicidades. Isso sem falar no aumento de vendas que esse reconhecimento democrático e massivo que os downloads proporcionam. “A verdade é que o contexto da economia criativa mudou radicalmente, pois ainda que haja custos na produção de uma obra criativa, uma vez criada, esta obra pode se tornar em fator de enriquecimento de toda a humanidade, já que a disponibilização é praticamente gratuita” (p. 5).
As empresas não estudam formas de se moldar em face às transformações sociais. Por outro lado, pressionam o governo a fim de controlar e frear essas modificações em benefício próprio, ignorando os usos sociais da arte e do conhecimento. Segundo o economista vencedor do Prêmio Nobel, Lawrence Lessig, a economia da informação e do conhecimento deve respeitar critérios mais democráticos e flexíveis, que retratem a realidade da sociedade contemporânea.
Os autores descrevem que as indústrias culturais aplicam relações e práticas de produção que remetem à Revolução Industrial de 1850. Com isso, eles tratam o acesso às obras e ao conhecimento como uma mercadoria tradicional: tentam limitar o consumo de bens simbólicos, criando a falsa sensação de limitação e, consequentemente, de valor econômico incorporado. Desnecessário relembrar em profundidade a discussão foucaultiana sobre os autores.
Tais práticas são surreais, se levado em conta o contexto contemporâneo. O conhecimento, em suas características, não é uma manufatura findável. Pelo contrário, a divisão do conhecimento estimula o aparecimento de novas obras, ideias inovadoras e mais conhecimento. Além disso, explicam Stiglitz e Benkler, que os bens simbólicos incorporam valores, usos sociais e ideias. Não são considerados apenas pelo seu valor de produção/mercado. “Interessa-nos o fato do valor agregado de um produto residir cada vez mais no conhecimento incorporado” (p.7).
Em termos gerais, portanto, a sociedade do conhecimento acomoda-se mal da apropriação privada: envolve um produto que, quando socializado, se multiplica. É por isso, inclusive, que nos copyrights e patentes, só se fala em propriedade temporária. No entanto, o valor agregado ao produto pelo conhecimento incorporado só se transforma em preço, e consequentemente em lucro maior, quando este conhecimento é impedido de se difundir. Quando um bem é abundante, só a escassez gera valor de venda (p.8).
Com isso, cria-se uma tensão entre duas lógicas: a sociedade do conhecimento e o sistema de leis que foram criados em séculos passados. “Por simples natureza técnica do processo, a aplicação à era do conhecimento das leis da reprodução da era industrial trava o acesso” (p.8). Isso trava, no final das contas, o progresso científico da humanidade e a troca de tecnologia/sabedoria entre culturas e países.

Ideologia e hegemonia
Não é necessário muito para entendermos que a lógica defende os interesses das elites tradicionais que comandam o mundo desde as revoluções burguesas. As leis de copyright protegem, na verdade, o capital de poucos e prejudica a sociedade e, me permito dizer, toda a eficácia da globalização, em seus valores, premissas e possibilidades.
Analisado de uma forma mundial, a desigualdade entre as nações se torna ponto fundamental de todo o processo. O conhecimento institui as bases do progresso econômico, muito mais do que a acumulação do capital, que a crise de 2008 provou soçobrar facilmente com a repetição de formas de exploração e rentabilidade que se aproveitam de realidades econômicas de países “subordinados”. “O direito de propriedade intelectual não está baseado no direito natural de propriedade, mas no seu potencial de estimular a criatividade futura” (p.9).
Os autores explicam que “o conhecimento não nasce isolado. Toda inovação se apóia em milhares de avanços em outros períodos, em outros países” (p. 10). A inovação, diz Dowbor, é um processo socialmente construído, que se ampara em todo o conhecimento elaborado pela sociedade, desde às primeiras tecnologias no neolítico. O jurista, James Boyle, fundador dos Creative Commons, nos mostra que as nações hegemônicas se apropriam desse conhecimento de forma gratuita e cobram pelo produto elaborado no final, ele chama esse processo de “enclosure movement”.
As minorias que se apropriam de uma exorbitante parcela da riqueza gerada pela sociedade, apresentam-se como “inovadores”, “capitães da indústria”, “empreendedores” e outros qualificativos simpáticos, mas a realidade é que conforme cresce de maneira impressionante, durante o último século, o conhecimento acumulado e o nível científico geral da sociedade, a porcentagem de idéias que estas elites acrescentam no estoque geral é mínimo, enquanto a sua apropriação tornou-se absolutamente gigantesca, porque colocam um pedágio no produto final que vai ao mercado (DOWBOR, p. 11, 2009).
Esse movimento preserva a riqueza dos países hegemônicos e torna ainda maior o abismo que os separa das “nações em desenvolvimento”. Interessante destacar o quão hipócritas soam as publicidades de responsabilidade social e fomentação da cultura que as grandes empresas veiculam com grande estardalhaço, enquanto seus grupos de pressão travam o acesso democrático à cultura.
Controle dos veículos
Acontece que grande parte dos órgãos de distribuição pré-internet são controlados por esses grupos elitistas que primam pelo enriquecimento particular. Os meios de comunicação, por exemplo, recebem as concessões estatais para funcionar e ignoram sua função social, limitando-se a uma pseudo-prestação de serviço, a qual eles ainda se gabam por fazer. As gigantes recebem os direitos de transmissão, não recebem fiscalização, monopolizam o agendamento de assuntos na sociedade e, apesar de se dizerem “defensoras” da liberdade, impedem a fundação de órgãos comunitários para que as diversidades de opinião sejam expressas.
“O primeiro fato é que a emissão de curto alcance (low power radio service) é perfeitamente possível, e não deveria ser condenada como pirataria” (p. 13). Importante lembrar aqui da criminalização que a lei brasileira faz das rádios comunitárias de baixo alcance. “A comunicação passou a ser interativa, e a própria grande mídia, que através da ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV) combate qualquer tentativa de democratização do acesso, criminalizando as rádios comunitárias, terá de começar a pensar o seu futuro de maneira criativa” (p. 24).
Nas telecomunicações, o exemplo de Philadelphia é exemplo claro da ação das empresas. A tecnologia de rede wireless municipal, cobrindo toda a cidade, é barata. Na cidade, o projeto de “municipal mesh Wi-fi networking” custaria aos usuários a bagatela de 10 dólares, por uma transmissão de 1 mb/segundo. Muito inferior aos 45 dólares que a empresa local de internet cobra por sua banda-larga. São essas companhias que travam a expansão dessa tecnologia, que beneficia os cidadãos reduzindo os custos de conexão, mas mina os negócios particulares.

Limitar e distinguir o abundante
Rifkin, em A Era do Acesso, descreve que hoje os produtos simbólicos não respeitam mais a lógica produtores/compradores, mas fornecedores/usuários. As pessoas pagam pela utilização de determinados serviços, comunicação, lazer. “O acesso gratuito ao mar não enche os bolsos de ninguém. Fechemos pois as praias” (p. 14).
O capitalismo cria escassez de atos que eram gratuitos para elevar os preços de cobrança. “Ficamos cada vez mais presos na corrida pelo aumento da nossa renda mensal, sem a qual nos veremos privados de uma série de serviços essenciais, inclusive a participação na cultura que nos cerca” (p.15). Dowbor chama isso, de forma muito lúcida, de “pay-per-life”.
O direito dos autores é apenas uma falácia que as empresas evocam, junto com a ética, decaída e anacrônica, para, no fundo, defender o monopólio da exploração comercial dos bens simbólicos. “O receio é que o foco nos lucros para as corporações ricas represente uma sentença de morte para os muito pobres no mundo em desenvolvimento” (p. 15).

Referência
DOWBOR, Landislau. Da propriedade intelectual à economia do conhecimento. Outubro, 2009.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Debate analisa o livro Por Uma Vida Melhor


Marcelo Alves e Vinicius Tobias

Desmistificar as análises descontextualizadas feitas por órgãos da imprensa sobre o livro didático, Por uma vida melhor, de Heloísa Ramos. Essa foi a finalidade do debate promovido pelo projeto 5ª Cultural, Por uma língua melhor?,que aconteceu hoje, 20 de junho, no Anfiteatro do campus Dom Bosco da UFSJ.

O professor do curso de Letras da UFSJ, José Antônio Oliveira de Resende, argumenta que Por uma vida melhor faz menção a uma variedade linguística. “Ele não ensina a falar errado. Defende a norma culta, mas ressalta que existem outras maneiras de falar, adequadas em certos meios”, diz.

O aluno do 7° período de Letras, Helthon Resende de Andrade, que também participou da mesa-redonda, afirma que as críticas foram levianas e sem embasamento. “Analisaram apenas o primeiro capítulo, com informações incoerentes e imprecisas”, critica.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Luta, abandono e perseverança


Um retrato das manifestações culturais afro-descendentes em São João del-Rei
Marcelo Alves

A Linguagem dos sinos, a Maria Fumaça com bitola de 32 milímetros, a única em funcionamento no mundo, as orquestras mais antigas do Brasil, as imponentes igrejas barrocas, a arquitetura variada. Esses elementos são parte das tradições de São João del-Rei. Parte. Ou, pelo menos, o que é comentado, divulgado, patrocinado e preservado. Do alto dos montes, da periferia e dos recantos da cidade ecoam, ainda, os batuques dos negros de descendentes de escravos e as rezas de Candomblé e Umbanda.
Abandonados pelo poder público, os movimentos como Congado, Candomblé e grupos de inculturação vão tentando sobreviver. Na luta do dia-a-dia, a memória e a identidade negras são preservadas por pequenos círculos de amigos que investem dinheiro do próprio bolso em vestimentas, em instrumentos, em consertos, em oficinas e em despesas com a sede.

Raízes
De acordo com o folclorista, Ulisses Passarelli, a cultura negra está presente em São João desde suas origens. O Arraial das Mortes foi formado no ciclo do ouro. A economia era movimentada pela mineração e os garimpos, explorados com a força braçal dos escravos africanos. “Em 1704, foram descobertas as minas e, em 1705, começou a extração”, conta o folclorista. Por algum tempo, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário centralizou as tradições africanas. “Em torno dela é que os negros faziam suas comemorações”, diz Passarelli.
Há poucos estudos sobre o desenvolvimento das manifestações afro na cidade. Sobraram apenas as memórias dos movimentos mais antigos e ensinamentos orais transmitidos de pai para filho. É o que conta o presidente da Associação de Congado Santa Ifigênia, Nivaldo Neves, do Bairro São Geraldo. Ele afirma que, na década de 40, existiam grupos de Congado no bairro do Tijuco e na região de Santa Cruz de Minas.
“Teve uma época que se dançou no Centro, na Igreja do Rosário. Mas isso foi se perdendo por falta de incentivo e adeptos”, comenta Neves. Nivaldo garante que o Grupo de Congado Nossa Senhora do Rosário, do Rio das Mortes, tem mais de 200 anos, passando as atividades de pai para filho.

Reconhecimento (ou falta de)
“O Congado é a maior expressão da cultura afro na região”, informa Ulisses Passarelli. Os líderes dos grupos são categóricos ao falar sobre subvenção municipal. “Para perpetuar a tradição, precisamos de incentivos. Mas como não há uma política voltada para isso. Aí, o jovem fica perdido ou, senão, participa e desanima”, argumenta o presidente da Associação de Congado do São Geraldo.
Nesse sentido, o secretário de Cultura e Turismo, Ralph Araújo Justino, reconhece que o poder público está em débito com os grupos afro-descendentes. “Precisamos ajudá-los, mas não fizemos nada, até agora. As dificuldades da prefeitura são muito grandes. Pretendemos, a partir de 2011, convocar o pessoal da cultura afro para poder ter uma atuação mais próxima, inclusive com verba do Fundo de Cultura”, afirma.
O diretor técnico do escritório do IPHAN em São João, Mario Ferrari, informou que o instituto não tem nenhuma política municipal voltada para essas manifestações. “Não temos nenhum projeto de apoio, infelizmente”, lamenta.
Mesmo assim, os grupos vão se mantendo com a ajuda da comunidade, com doações e às despesas de seus integrantes. A presidente do Grupo de Inculturação Afro-descendente Raízes da Terra, Vicentina Neves, relatou que chegou a buscar apoio na Secretaria de Cultura. “Mas eles não nos valorizam. Usam, mas não valorizam”, desabafa.“Não só a afro, mas a cultura folclórica também está abandonada”, sentencia Ulisses Passarelli.
Segundo Nivaldo Neves, os movimentos precisam de um local para oferecer oficinas de pintura, alfabetização, aulas de informática e acompanhamento social. “Hoje estamos tentando adquirir um terreno na prefeitura para fazer as atividades. Temos CNPJ, tudo direitinho e legalizado para receber verba, mas não temos nenhum tipo de apoio da prefeitura”, diz o congadeiro.

Escola e sociedade
As escolas trabalham conteúdo afro no final do ano, perto da data da morte de Zumbi. O restante dos anos não se fala sobre a cultura afro. Muitas vezes, os professores não estão adequados a esse trabalho. “Vemos muito preconceito dentro das escolas. Ouvimos relatos de meninos contando que os chamam de macumbeiros na escola por serem inseridos em religião de matriz africana.”, diz Nivaldo Neves.
Dona Vicentina conta que a UFSJ é a única instituição que tenta apoiar os grupos, oferecendo espaço e acompanhamento por meio de cursos. Mas ela ressalta que isso é insuficiente. “A UFSJ nos ofereceu espaço, mas lá descentraliza o movimento, perderíamos nossas raízes do São Geraldo”, afirma.

Inculturação, o paradoxo católico
Com a indiferença das instituições laicas, os movimentos afro se voltam para a Igreja. Dona Vicentina afirma que algumas paróquias abrem as portas para os grupos. Nivaldo e Ulisses lembram, por outro lado, que a aceitação é recente. “Quando começamos, em 94, não éramos reconhecidos pela Igreja. Com o tempo, conseguimos entrar”, confirma o congadeiro.
Certas paróquias realizam as missas inculturadas. O vigário geral da paróquia de Nossa Senhora da França de Resende Costa, Raimundo Inácio da Silva, explica que a missa inculturada é uma forma de resgatar a riqueza da cultura afro-descendente. “Celebramos a Missa Romana, com introduções de elementos afro”, diz.
A Festa do Divino e a Festa de Nossa Senhora do Rosário permitem o desfile de grupos de congado e de cantos africanos. No entanto, o pároco que nem todos os elementos da crença são autorizados. “É fonte de estudo aquilo que pode ser colocado e aquilo que não pode. Há ritos de outras divindades que não batem bem com o catolicismo. Temos cuidado ao analisar o que pode ser acrescentado na liturgia afro para não virar uma mistura de catolicismo, umbanda, candomblé”, comenta Raimundo da Silva.
A Igreja preserva no momento em que abre as portas e permite que as manifestações aconteçam, enfatiza Ulisses Passarelli. “Mas uma coisa é missa inculturada, outra, é uma sessão de Candomblé, Umbanda ou de Quimbanda. São coisas diferentes. Não vão se estabelecer um dentro do outro”, atenta. Esse momento ecumênico é importante no momento em que respeita as diferenças. Isso permite com que as pessoas conheçam a cultura da periferia.
“A Igreja descaracteriza quando cria amarras para a tradição, quando proíbe que certa coisa aconteça ou define como deve acontecer”, critica o folclorista. A Igreja não pode interferir na manifestação, precisa trabalhar em conjunto e não estipular normas. “Ao mesmo tempo em que a Igreja ajuda a preservar, ela descaracteriza. Sempre foi assim. Isso, eu não sei se muda”, opina. “Dos males o menor, porque houve tempo em que eram proibidas certas manifestações”, acrescenta.
São João abriga também terreiros de Candomblé, Umbanda e Quimbanda. O babalorixá do terreiro do Alto das Mercês, Edimar _______, propõe a inclusão do negro “Mostrar que o Candomblé não é só uma religião, mas uma cultura, um ritmo e uma arte. O candomblé é um museu vivo de cultura imaterial”.
“No princípio, sofremos muita marginalização. Porque, em São João, predomina uma religião de origem portuguesa. Tudo que é oriundo do negro ainda sofre uma discriminação muito grande, apesar de ter pessoas aberta ao diálogo”, enfatiza o babalorixá.
O terreiro foi reaberto há três anos. Contudo, ainda não foi regularizado por falta de verbas. Essas casas são, geralmente, instaladas em bairros mais pobres e marginalizados. “Essas comunidades são mais receptivas. Não temos espaço no Centro, onde predomina o cristianismo. Hoje a marginalização do rito é bem menor por causa dos direitos humanos garantidos pela Constituição e pela Justiça. Mesmo assim, ainda há discriminação”, conta Edimar.
A relação com dos terreiros com a religião católica varia entre as paróquias, de acordo com Edimar. “O que difere muito dos evangélicos, que não tem a tolerância de alguns segmentos da Igreja Católica”. Porém, o babalorixá explica que os afro-descendentes foram levados a abandonar suas tradições. “Já é discriminado por ser negro e, também, por sua religião. Muitos tentam branquear sua negritude e os aspectos de sua cultura”, afirma.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Oficinas da 5ª Cultural estimulam formação de professores


Marcelo Alves e Vinicius Tobias

A primeira oficina ocorreu dia 08: Todo dia, toda hora tem: história, música e teatro na escola. Segundo o oficineiro, Carlos Roberto de Souza, o objetivo foi mostrar aos futuros professores as possibilidades da contação de histórias em sala de aula. “Os aspectos lúdicos das narrativas podem ser usados na educação infantil para estimular a percepção sensorial e musical das crianças”.

Música popular e moderna, e poesia brasileira: tradições e contradições foi ministrada nos dias 09 e 10. Para Igor Alves, aluno de Letras e responsável pela oficina, o mini-curso explorou os horizontes atuais do lirismo brasileiro e proporcionou novos debates, “que nem sempre são abordados na graduação”.

O participante e aluno de história, Rafael Teodoro Teixeira, gostou dos mini-cursos. “Aprendi novas formas de contextualizar o ensino que acredito que vai ser muito útil para mim”.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Acessibilidade é precária em São João

* Marcelo Alves e Vinicius Tobias

De acordo com o Censo/2010, São João del-Rei possui 976 pessoas com mais de 80 anos, a denominada 4ª idade. Esses cidadãos sofrem de doenças que dificultam a mobilidade e a autonomia. A cidade acessível, segundo definição do Estatuto do Idoso, é a que garante a toda sociedade a faculdade de ir, vir e estar nos locais públicos comunitários.
A pedagoga especialista em gerontologia, Maria José Cassiano de Oliveira, acredita que esse não é o caso de São João del-Rei. Para ela, o município não possui políticas de integração dos mais velhos. “A acessibilidade é um dos aspectos mais trágicos. Os idosos não têm como atravessar as ruas, pois os semáforos mudam muito rápido. Não há praças suficientes para convivência, as calçadas dificultam a caminhada e faltam banheiros públicos”, reclama a pedagoga.
A arquiteta e mestra em gerontologia, Adriana de Almeida Prado, aponta que as cidades precisam desenvolver políticas voltadas para “o acesso de todos a prédios e espaços públicos; cuidar para que não haja obstáculos de mobilidade, projetar edifícios multigeracionais e veículos que minimizem as dificuldades de pessoas com idade e deficiências”.

Dificuldades
São comuns a muitos cidadãos com mais de 80 anos os problemas com mobilidade e acesso a prédios públicos em São João. Nesse sentido, Maria Cristina Lima, de 80 anos, diz que enfrenta obstáculos diariamente. “Saio muito de casa, vou à missa todos os dias, pego ônibus. A pessoa mais idosa tem mais dificuldade, mas ainda conseguimos passear. Temos que ter muito cuidado, porque é muito perigoso, podemos cair e quebrar algum osso. Andar na rua é complicado, porque os carros não respeitam”, afirma Maria Lima.
Zeni Cordeiro, de 81 anos, comenta que ficou mais caseira com a idade. “Assisto à missa na televisão, não vou à igreja porque é muito longe da minha casa e não aguento andar muito. Ela também sente insegurança para atravessar as ruas e reclama da velocidade dos sinais. “Os carros não respeitam e eu desequilibro. Cismo que vou cair”, diz.
As cidades devem manter calçadas com piso estável, reto e com superfície antiderrapante, informa a arquiteta Adriana de Almeida. O que é um desafio para cidades históricas, com ruas estreitas e irregulares. A pedagoga Maria Cassiano conta que “as pessoas tropeçam muito nos paralelepípedos. As quedas para os idosos costumam a ser muito perigosas”

Transporte público
A circulação por transporte coletivo também não está totalmente adequada, afirma a gerontóloga. “Só quem dá conta das atividades diárias consegue pegar um ônibus. Mas com muita dificuldade ainda, as pessoas não têm consciência de que devem que ceder os lugares da frente. Os assentos reservados não bastam. Os motoristas não foram capacitados para receber as pessoas mais velhas e apenas alguns ônibus têm degraus rebaixados”, declara Maria Cassiano.
Marcia Leila de Castro Pellegrinelli, de 81 anos, aponta que o mais difícil para os idosos é a ausência de um transporte coletivo específico. “Deveria ter um transporte para os idosos em cada bairro. Os espetáculos religiosos, por exemplo, a gente perde porque são à noite. E acrescenta: “Acho muito importante que a comunidade desenvolva alternativas e a Prefeitura deveria tem uma van”. Jandira Pereira Lima, de 90 anos, conta que os filhos a proibiram de andar de ônibus por precaução. “Eu ando para lá e para cá de carro, só ando a pé perto de casa”.

Espaços públicos
Os poderes Executivo e Legislativo não dão o exemplo. O prédio da Prefeitura tem dois andares. Uma escada íngreme é a única ligação entre eles e não há projeto de adequação para idosos e deficientes físicos. O edifício da administração, que centraliza as Secretarias mais importantes, também não possui elevador. “Vocês nem imaginam as dificuldades para os idosos irem aos espaços de representação reivindicar seus direitos, como a Câmara de Vereadores e a Prefeitura. O acesso é bem complicado, com escadas muito inclinadas, que impossibilitam a subida do idoso”, declara Maria Cassiano.
A assessoria de imprensa da Prefeitura afirmou que deve partir do Legislativo uma lei que obrigue os prédios municipais a terem opções de acessibilidade. O setor também se disponibilizou a fazer um levantamento dos prédios públicos que oferecem acessibilidade. Contudo, mais de uma semana após a requisição, não deu resposta. Apenas os prédios mais novos, como o Fórum, o Ministério Público e o Batalhão da Polícia Militar foram projetados de acordo com as necessidades dos idosos.


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Ocupação desordenada da margem do Córrego dos Lenheiros é a principal causa das enchentes

Fenômeno histórico é fruto da falta de projetos e de informação do Executivo

João Eurico, Marcelo Alves

São João del-Rei há muito tempo sofre com o problema das enchentes. Por falta de informação ou por omissão do poder público, a área urbana cresceu descontroladamente. Isso danificou o funcionamento do Rio das Mortes e do Córrego do Lenheiro, consequentemente, causando os alagamentos nas casas situadas às margens. É isso que a pesquisa intitulada Impactos Ambientais Urbanos Provocados pela Ocupação da Planície Fluvial e do Entorno do Rio das Mortes e seus Afluentes, comprova.
O estudo foi coordenado pelo professor e doutor em Geografia e Análise Ambiental da UFSJ, Vicente de Paula Leão, e contou com o auxilio da bolsista Raquel Cassia. Segundo Vicente, a ideia da pesquisa surgiu a partir de seus vinte anos de observações do fenômeno das enchentes na cidade. Isso, somado ao interesse do professor em geografia física e urbana, resultou em uma pesquisa essencial para a comunidade são-joanense.

Ocupação desorganizada
O pesquisador explica que o tema sempre foi tratado de maneira equivocada, tanto pelos habitantes da cidade quanto pelo meio acadêmico. “Alguns cidadãos acham que o fenômeno tem a ver com tromba d’água”. O que é incorreto, “visto que este é um jargão jornalístico do litoral. Já o meio acadêmico sempre discutiu o assunto de maneira muito superficial. A ideia da pesquisa é demonstrar os impactos ambientais urbanos que causam enchentes”.
Segundo Vicente, as pessoas costumam associar as enchentes às chuvas fortes, o que não é totalmente verdade. Ele explica que a causa está na urbanização desorganizada, que danifica a circulação correta do fluxo de água. “São vários os problemas causados pela ocupação humana: as construções em lugares inadequados reduzem o leito do rio; o asfalto diminui a impermeabilização do solo; a agricultura imprópria despeja sedimentos no rio; a mata ciliar, que ajuda na absorção da água é cortada. Então, são vários fatores que quando somados às chuvas fortes causam as enchentes”, explica.
Vicente ilustra o problema da ocupação humana desordenada usando do Google Earth (sistema de captação de imagens aéreas por satélites) como exemplo: “ao olharmos o bairro de Nossa Senhora de Fátima e a cidade de Santa Cruz de Minas, percebe-se que estão construídos em boa parte na planície de inundação do Córrego do Lenheiros. Então, um fenômeno que seria normal para um rio, que é quando suas águas sobem, acabou se tornando um problema”. Ele enfatiza que a subida do rio, em condições adequadas, é fundamental para o meio ambiente, para a fertilização do solo por exemplo.

Despreparo
O doutor em Geografia afirma que o Brasil é um país tropical, e que, consequentemente, são comuns em seu território chuvas torrenciais – muita chuva num curto período de tempo, e que por isso deveríamos estar sempre preparados. Vicente também alerta para o oportunismo de políticos em épocas de enchente: “depois que o estrago está feito, sempre aparece um político para dizer que o problema é a chuva forte, e que consertará o problema. Olhe por exemplo o Canadá: você não vê as nevadas causando tantos problemas por lá, porque eles estão preparados para este tipo de situação”.
As enchentes não podem ser simplesmente arrumadas de uma hora para outra, e que “o correto seria que houvesse ao menos um sistema de alerta à população, um programa de prevenção de doenças, enfim, um auxílio maior às vítimas das alagações. E não políticos falando sobre coisas impossíveis de serem feitas”, orienta.

Cidade e campo
A pesquisa demonstra que o problema das enchentes em São João del-Rei ocorre por fatores que envolvem tanto da zona rural quanto da urbana. Segundo o professor, quando a agricultura é feita de forma errada, as chuvas passam pelo relevo arado e levam os sedimentos ao rio. O que diminui o volume de água comportável, facilitando a inundação. Efeito semelhante ocorre na cidade, quando as partes mais altas são desmatadas e deixam o relevo desprotegido, então quando chove forte desce uma enorme quantidade de terra dos morros, que também acumulam sedimentos no rio.
Segundo Vicente, as áreas perto de rios serem menos valorizadas, o que acaba atraindo ainda mais construções: “aqui em São João os terrenos e casas em locais centrais estão muito caros, o que obriga a população mais carente a se alojar onde pode”.

Alternativas
Vicente explica que não existe uma solução propriamente dita para o dano já causado na ocupação inadequada dos leitos Segundo ele, não seria viável simplesmente retirar as construções das margens do rio, já que existem histórias pessoais ligadas àquelas casas. “O que deveria existir é um trabalho de preservação da mata ciliar, para diminuir o assoreamento e o lixo jogado nos rios e nas ruas da cidade, lixo que acaba entupindo bueiros e aumentando o problema. As escolas também deveriam ter um papel educativo, com o uso de material apropriado, para mostrar à comunidade as causas do problema. Senão fica difícil para as pessoas entenderem, por exemplo, que o asfalto do bairro Senhor dos montes esta relacionado às enchentes do Nossa Senhora de Fátima”.
O professor afirma que a Universidade ainda é muito distante da comunidade e do poder público. Quanto à pesquisa, por exemplo, Vicente disse que a prefeitura não foi receptiva quanto aos estudos, demostrando dificuldade de acesso aos dados, “ou porque a pessoa desconhece ou porque não tem vontade de mostrar mesmo”.
Concluindo, o pesquisador defende que enquanto a sociedade não mostrar que esta atenta as questões ambientais e que isto ira orientar o foco dela, não será feita muita coisa à respeito. Segundo ele, do jeito que vão as coisas “os políticos vão continuar não se preocupando com o meio ambiente”.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Especialistas alertam para uso incorreto de antidepressivos

Ainda que alvo de controvérsias, antidepressivos são muito procurados, mesmo por pessoas que não entendem o seu funcionamento

João Eurico, Marcelo Alves, Pedro Inácio

Os antidepressivos são os remédios mais vendidos no mundo, segundo a OMS. Em São João del-Rei, a procuram por esse psicotrópico também é alta. O farmacêutico Paulo Giarola informa que o medicamento é vendido rapidamente nas farmácias, bastando ter estoque dos remédios indicados. “Tendo na prateleira, eu tenho venda”. No entanto, aplicação desse remédio deve seguir diversas cautelas.
Os antidepressivos são um conjunto de substâncias químicas que tratam as manifestações somáticas e neurofisiológicas presentes nos estados depressivos e agem sobre o humor. A depressão é apontada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como a quinta maior questão de saúde pública. Os números da entidade apontam que a depressão atinge 17 milhões apenas no Brasil e 50% das pessoas que tiveram a doença são diagnosticados incorretamente.
A psicóloga Claudia Márcia Miranda de Paiva, professora e pesquisadora do curso de Psicologia da UFSJ, chama a atenção para a banalização do antidepressivo e seu uso sem acompanhamento médico adequado. “Muitas pessoas chegam à clínica pedindo o antidepressivo, sem necessidade. Mas a prescrição depende da ética médica. Não sou contra o uso de psicotrópicos, mas acredito que o seu uso está banalizado. A pessoa perde um ente querido e alguém diz ‘olha, toma esse remedinho aqui, vai te fazer sentir melhor’”, explica a pesquisadora.
A procura pelos antidepressivos é bem alta em São João. O farmacêutico Paulo Giarola informa que o medicamento é vendido rapidamente nas farmácias, bastando ter estoque dos remédios indicados. “Tendo na prateleira, eu tenho venda”. Ele alerta, ainda, para o fato de que muitas pessoas vão constantemente à farmácia tentar comprar o remédio sem a prescrição médica. “Muita gente adquire o hábito de tomar o antidepressivo sem acompanhamento profissional. Às vezes, ela necessita do medicamento para se sentir bem, mesmo sem precisar dele”, comenta.
No entanto, as posições dos profissionais sobre o tema tendem a diferir muito. O psiquiatra Reinaldo Moreno explica que não é para qualquer caso de depressão que os antidepressivos são recomendados. O médico informa que existem dois tipos de depressão: a reativa e a orgânica ou maior.
A reativa ocorre quando a pessoa se sente mal em decorrência de algum fato ocorrido de forma circunstancial, como a perda do emprego, fim de um relacionamento, morte de alguém próximo. Para este tipo de depressão, segundo o psiquiatra, é recomendada a psicoterapia, e não a medicação. Moreno esclarece que, já para o tipo orgânico, ou seja, aqueles que são geneticamente propensos à depressão, são indicados a psicoterapia e os antidepressivos e, mesmo assim, apenas o estritamente necessário para o tratamento.

Sociedade
Cláudia Márcia explica que os seres humanos sofrem uma variação de humor muito grande. Ela argumenta que as pessoas precisam aprender a conviver com isso, a se conhecerem melhor a fim de aprenderem com essas situações e se reinventarem. “Mas essa cultura de estar sempre alegre, para cima e bem disposto leva as pessoas a procurarem as famosas ‘pílulas da felicidade’”, diz a psicóloga.
A psicóloga acredita que essa banalização é acentuada pela propaganda que as indústrias farmacêuticas fazem dessas drogas. “Como, por exemplo, a fluoxetina, o conhecido Prozac, que fala coisas do tipo, ‘os tempos de depressão acabaram, experimente a felicidade que podemos lhe proporcionar’”, comenta. Ela afirma que, para muitos casos, a psicoterapia seria uma saída mais adequada.

Legislação
Os antidepressivos não podem ser comercializados sem receita médica. Reinaldo Moreno, explica que, ao ser medicado, o paciente encontra-se em estado de melhora em 10 a 15 dias, e a dosagem indicada será constantemente vigiado pelo médico. “Um profissional experiente indicará apenas o necessário e, por se tratar de substâncias de uso controlado, é realmente improvável que o paciente consiga o remédio de outras formas que não na farmácia, de posse da receita. Comprar remédios ilegalmente hoje em dia é muito difícil”, diz Reinaldo.

Dependência
Os psicotrópicos causam variações de humor. Cláudia Márcia explica que, se houver um uso descontrolado, eles produzem uma dependência moderada, além de uma tolerância. “O uso crônico muda as estruturas responsáveis pelo funcionamento do corpo. O efeito que o medicamento tinha no início vai diminuir ao longo do tempo, o que leva a pessoa a aumentar a dose. Quando o médico prescreve o antidepressivo, ele faz um acompanhamento do paciente que visa à diminuição da dosagem”, esclarece a psicóloga.
De acordo com Reinaldo Moreno, os usuários de antidepressivos não se tornam dependentes químicos, pois, segundo o psiquiatra, tais substâncias não causam esse efeito. “As pessoas confundem vício com necessidade médica. Pode ser que o paciente precise usar da medicação por longo período, mas isso não faz dele um viciado, e sim um doente em recuperação”.
O psiquiatra esclarece que há casos de paciente do tipo orgânico que precisam tomar medicação para o resto da vida, mas que isso deve ser comparado com, por exemplo, alguém que sofre de pressão alta e toma medicamentos. “O doente não tem culpa de seu estado, e, no caso da depressão maior, a medicação deve ser vista como algo natural para a boa vivência da pessoa”, explica.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Restaurante une tradição italiana com costumes mineiros

Marcelo Alves e Vinicius Tobias

A massa do Restaurante da Filó preserva e conta 123 anos de histórias de imigrantes italianos que vieram para o Brasil, fugidos da pobreza e da fome na Europa. Passado de mãe para filha, o macarrão caseiro era feito pelas mulheres em ocasiões especiais, como casamentos, batizados, reuniões. Após quatro gerações de vivência na Colônia do Felizardo, a família Taroco, vinda da cidade de Verona, Itália, foi incorporando ingredientes da cultura mineira e mesclando costumes. A interação criou um modo de cozinhar que reúne elementos da Itália com temperos e ervas de Minas Gerais.


A família Taroco imigrou para São João del-Rei na década de 1890 e construiu suas casas em terrenos cedidos pelo o governo para os imigrantes. Eles vieram num contexto pós-escravidão e eram sub-empregados em fazendas da região em troca de comida e proteção. Representante da quarta-geração da família, Valéria Taroco conta que muitos se revoltavam pela pesada carga de trabalhos.


Em reuniões familiares, os pratos italianos eram preparados pelas mulheres, tradição preservada com o passar dos anos. “As receitas vieram do aprendizado que adquiri com minha avó”, relata Valéria. Ela afirma que a família italiana foi se misturando com os mineiros. “Meus tios casaram com brasileiras, italiano gosta de morena e ficou essa mistura”, diz.


Com isso, a culinária foi adquirindo elementos novos. “Fazemos frango com ora-pro-nobis, feijoada, torresmo e quiabo. Mas a parte mais forte é a massa”, explica a cozinheira. Os temperos são herança de família, “mas tem algumas ervas que uso como o alho-poró e o orégano que vieram da culinária mineira. Fizemos a misturinha, um pouco de cada lado para ficar um pouco mineiro, um pouco italiano”.


A produtora cultural, Alzira Agostini Haddad, é fã das comidas preparadas por Valéria Taroco. Ela fez questão de elogiar o restaurante e destacar a qualidade dos pratos. “A Valéria busca preservar a receita italiana e tem um local bem gostoso - a casa dela - onde podemos passar bons momentos comendo uma comidinha caseira de fogão a lenha”, enfatizou Haddad.


Restaurante

O local onde são servidas as delícias é um ambiente espaçoso, caseiro e atendimento personalizado. O restaurante, que abre sábados, domingos e feriados, produz sua própria massa, de receita tradicional, trazida direto da Itália. Lá são servidos pratos diversos, como lasanha, capelete, rondeli, caneloni e risotos para todos os gostos. Os vegetarianos não foram esquecidos e possuem opções especiais.


“É um trabalho de segunda a sexta para produzir a massa do almoço de sábado e domingo” declara Valéria Taroco, comandando a sua aconchegante cozinha. “A gente tem que apertar a massa, deixar descansar, esticá-la e molda-la, além de fazer os recheios e os molhos no dia em que servimos.”


Produção familiar

Isso tudo é produzido em um ambiente aconchegante e familiar, onde trabalham sua tia, avó, filha e amigas. As rotinas de criação são bastante barulhentas, com o rádio alto as mulheres põem a conversa em dia com muita animação. Uma boa vontade que carece à boa culinária.


Valéria conta que a massa tradicional é batida e esticada em tabuleiro de madeira e não de cimento, “isso influi na textura e no gosto da massa”. Os homens não escapam do trabalho. A eles é designada a tarefa de preparar o risoto, como bons mineiros descendentes de italianos, eles se reúnem e cozinham entre gargalhadas e muita cachaça. A aguardente, inclusive, é servida de graça e também é produzida em um alambique da família.


Local

Para desfrutar das delícias caseiras, o visitante deve ir à Colônia do Giarola, virar à direita depois da ponte e percorrer a estrada de terra cercada de árvores por um quilômetro até encontrar a casa colonial onde fica o restaurante. Para entrar em contato com a Filó, o telefone é 9941-4720, ou entrar em contanto pelo e-mail restaurantedafilo@hotmail.com.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Damae abre cerca de 20 buracos por dia para manutenção de rede de água


Setenta mil reais do orçamento da Prefeitura vão para o esgoto todo mês. O diretor do Damae (Departamento Autônomo Municipal de Água e Esgoto), Jorge Hannas Salim, afirma que 14% do orçamento do Damae são gastos em reparos na rede de água e esgoto e apenas 10% são investidos em saneamento básico. Além do alto valor, as constantes manutenções geram desconforto nos moradores e nos motoristas da cidade.



De acordo com Jorge Hannas, são abertos, diariamente, uma média de 20 buracos em São João del-Rei. Ele atribuiu à freqüência dos reparos à “precariedade das redes de água. Na maioria das vezes, fazemos o reparo em um dia e, no outro, o cano arrebenta no mesmo local. Então vira uma coisa praticamente contínua”, declarou o diretor do Damae.

Manutenção
Os problemas nas vias de água são causados pelo trânsito de veículos pesados. As tubulações são antigas, de ferro fundido e as junções são de chumbo. Elas não foram projetadas para suportar o tráfego atual. “Há uma circulação de automóveis leves e pesados muito grande no município. Mas, na colocação da rede, não houve preparação para isso”, disse Hannas.
Quando um cano trinca, os moradores avisam o Damae, que envia uma das oito equipes para fazer a avaliação e a manutenção do local. O serviço é terceirizado, já que a autarquia não possui todos os funcionários necessários para as obras, como calceteiro e máquinas de pavimentação.

Definitivo
Hannas declarou que, enquanto o Damae gerir o saneamento básico de São João, esse abre e fecha de rua irá continuar. A autarquia não possui verba para a troca completa das vias de água, estimada em R$ 55 milhões de reais. A solução, segundo Hannas, seria privatizar a autarquia.
Uma saída diferente seria um projeto de capitalização da autarquia, argumenta o vice-presidente da Associação dos Moradores Amigos de São João del-Rei (Amas del-Rei), Edmilson Resende Salles. “Critico muito o Damae por sua estrutura obsoleta e sua falta de planejamento”, disse.
Ele acredita que, mesmo com a atual arrecadação é possível começar a fazer um trabalho de substituição do encanamento, “principalmente no Centro”. Ele aconselhou a aumentar o investimento, por meio de um trabalho de capitalização.

Transtornos
A técnica em Enfermagem, Cláudia Oliveira dos Santos, 31, afirmou que passa todos os dias pela Avenida Tiradentes e frequentemente encontra obras de manutenção de rede de esgoto. “Aqui já tem uma circulação de automóveis muito grande em horário de pico. Então, quando tem alguma obra, o trânsito piora bastante. Fica complicado”, reclamou a motorista.
Outro condutor, Fernando Rodrigues da Silva, 44, se mostrou irritado com o buraco aberto. Ele afirmou que, embora de as manutenções sejam feitas rapidamente, elas acontecem constantemente. “O pior é que o asfalto fica todo irregular. Não colocam o asfalto de novo e fica um buraco desnível de terra ou um remendo de paralelepípedos no lugar”, declarou o empresário.

"Créditos da foto para Vinicius Tobias. Já queria fazer essa matéria há muito tempo. Creio que há mais de 10, 20 anos essa situação se repete e me recuso a acreditar que nada pode ser feito. Que, por mais brilhante que seja a administração, a situação não mudaria. Pouco a pouco, tudo se resolve. Principalemente com um plano de hidormetração paulatina e troca de encanamento das áreas mais prejudiciais. Falta vontade política, visto que o Damae poderia ter recursos para fazer as mudanças necessárias. Mas se não e do interesse do Sr. Prefeito, fica difícil."

Projeto pretende lançar um livro sobre correspondência do escritor são-joanense


O escritor são-joanense, Otto Lara de Resende, foi um dos mais importantes escritores de Minas Gerais. Célebre por seus livros, poemas e notícias em jornais e revistas, Lara conquistou amizades de grandes nomes como Hélio Pellegrino, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, formando o chamado “quarteto mineiro”. Com isso em mente, o pesquisador Adriano de Paula Rabelo, doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), teve a ideia de homenagear os 90 anos, que Lara completaria em 2012, analisando sua correspondência postal.

Otto Lara completaria 90 anos em 2021
A presidente do Instituto Artefato Cultural, Cristiane de Andrade Carvalho, contou que o projeto tem o objetivo de publicar um livro-estudo das cartas do escritor. Segundo ela, a correspondência mantida com literatos brasileiros é “uma importante fonte de informações sobre: política, literatura, história e o mais interessante: a amizade”.

Cristiane Carvalho enfatiza que Otto Lara é um dos intelectuais mais injustiçados do Brasil, pois sua vida e obra não são muito conhecidas pelo grande público. “Entendemos que o Otto merece, por causa da sua importante atuação no cenário cultural brasileiro”, reforçou.



Viabilidade
O projeto consiste em pesquisar o acervo de Otto Lara Resende e trazer a público o resultado dessa pesquisa, por meio de um livro. O Instituto Moreira Salles, guardião de parte desse acervo, apontou a possibilidade de realizar a edição. “Mas ainda estamos na fase de contatos para financiamento desta pesquisa”, disse

A entidade está tentando negociar patrocínio e apoio cultural, que pode ser de uma ou mais empresas, parceiros, poder público. Cristiane informou que estima um valor em torno de R$ 350 mil “para despesas com a remuneração da equipe de pesquisadores, transporte, alimentação e divulgação do projeto com assessoria de comunicação”.

Além do Instituto Moreira Salles, o projeto será cadastrado no Programa de Ação Cultural de São Paulo (ProAC – ICMS), para obtenção de apoio. Cristiane ressaltou que seria muito significativo realizar parceria com empresa ou poder público de São João del-Rei. “Acredito que os jovens mineiros sejam os grandes e mais importantes beneficiados com este projeto”.

O projeto ainda está no início. Os organizadores gostariam de distribuir o livro em 2012; se for possível, no dia 1º de maio, dia do 90º aniversário do escritor.

"Bom, depois de um longo e tenebroso hiato, voltei a postar no blog. Saí da Folha e estou tocando outros projetos, como um site de notícias online, iniciação científica, mobilização acadêmica e cursos de línguas. Portanto, devo diminuir a frequencia das postagens, mas não muito. Essa matéria me caiu no colo, no email na verdade. Cristina me procurou perguntando se eu conhecia alguem da prefeitura que poderia mediar uma parceria, eu passei os contatos que tinha e pedi uma entrevista. Ela me foi solicita e atenciosa, enviando as respostas com detalhes e em curto prazo, o que é raro. O projeto é bem interessante e torço para que se concretize com o apoio de órgãos públicos são-joanenses. Afinal, já passou da hora de a Prefeitura investir em ideias culturais bacanas e assumir seu posto como agente fomentador cultural..."